minha mãe deixa

“Mas minha mãe deixa”

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Quase que como um veredicto, a frase vem finalizar alguns minutos de negociação sobre comprar polvilho no supermercado. Depois de diversos argumentos como “ a gente ainda vai jantar”, “ vai sujar o carro”, “ polvilho não alimenta”, etc… a pequena me solta essa. Como foi a primeira vez, fiquei toda desconcertada com a chantagem emocional. Será que a mãe dela deixava mesmo ou era uma artimanha muito perspicaz? Com quatro anos? Fiquei titubeando entre o “minha mãe deixa” e a maré de “por favor” com uma vozinha meiga e querida. Quase me convenceu. Mas não. No meio daqueles corredores eu fiquei procurando uma resposta para não abrir precedente para esse tipo de argumento mais. Expliquei que cada pessoa era diferente e que cada um deixava fazer umas coisas e não deixava outras. Assim como na casa da mamãe era de um jeito e na casa do papai e da Bepa era de outro jeito. Isso virou praticamente um jargão, pois por algumas semanas ela insistiu no “minha mãe deixa”. Depois passou.

Conviver e entender rotinas e hábitos diferentes deve ser difícil. Enquanto a Isa está na casa da mãe a vida segue de um jeito, enquanto está na nossa casa, de outro. Regras que valem em uma casa, não valem na outra.  E  não existe argumento. É assim aqui e é assim lá, porque nada é melhor ou mais certo, são só jeitos, estilos.  O bom é que somos seres super adaptáveis e quando pequenos, ainda mais. A Isa desde pequena transita por rotinas diferentes e isso também a torna uma pessoa totalmente adaptável e social, curiosa e atenta ao outro. Um dia ouvi de uma menina de sete anos, com pais separados, que o melhor de tudo era ter duas casas. Me lembrei que eu também dizia isso quando era menor, apesar de muitas vezes, ter a maior preguiça dessa zanzação. Quantas vezes não esquecemos da mochila, do remédio ou queremos colocar uma roupa que tá na outra casa? Ou simplesmente queremos ficar no mesmo lugar e ponto. Duas casas não é fácil. Chega o final de semana e são outros brinquedos, outras roupas, outro quarto, outros programas, outras pessoas.  Nunca vi, mas poderia existir uma pesquisa sobre o nível de adaptação às mudanças dos adultos nos quais os pais não eram casados na infância.  Imagino que deva ser maior do que filhos de pais casados.

Penso muito nisso, nos hábitos lá de casa e na Isadora. Como “dona da casa” (que me perdoem as feministas, mas a mulher é a dona da casa)  tento manter coisas que acho importantes para que se estabeleça uma “ordem”, uma “cultura”, pois estamos naquele espaço formando uma família. Outros virão e irão conviver com esse “campo” que formamos todos os dias. Ao mesmo tempo, é preciso lembrar que a Isa traz outros ingredientes, outros temperos, que vão também fazendo parte dessa nossa mistura, dessa junção de histórias e bagagens que cada família tem e que de alguma forma, vão construindo o nosso caminho e a nossa identidade.  E assim, somos família.



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