Pedaço de pano inseparável: a naninha

Descoberta de pai: a “naninha”

Minhas duas filhas têm mais diferenças que eu poderia imaginar. Enquanto esperávamos a segunda eu me sentia seguro. Não poderia haver muita diferença. Já tinha uma filha e era só aproveitar o que já tinha acontecido a uma com a outra. As duas são mais ou menos bem diferentes, porém. Além do mais, em uma das coisas que as duas têm parecido, eu não aproveitei as lições corretas.

Não consigo imaginar em qual momento da evolução o bebê homem começou a dormir com um pedaço de pano. Mas toda criança tem aquele paninho sujinho, a variação de um bichinho fofinho encardida com o tempo e com o uso. A minha filha mais velha tinha uma coleção de naninhas. Eu deveria haver prestado mais atenção nisso. Se você consegue substituir uma naninha por outra – e se a criança aceitar – coisas mágicas são possíveis. É possível, por exemplo, lavar e até perder uma naninha.

Aconteceu, porém, que a naninha da nossa segunda filha foi um presente e até hoje não conseguimos rastrear a origem dele. Estamos presos a um único pedaço de pano. Um único bichinho fofinho e encardido deve estar funcional durante os sete dias da semana. Precisamos de truques diversos para lavar a coisinha. Além de tudo, existe aquele medo “e se essa coisa sumir”. E a pessoa só descobre isso quando o problema surge.

naninha 2

Se eu for representativo dentro do universo “pais”, a paternidade é uma ocupação que se aprende no exercício das funções. Se minha mulher for representativa do universo “mães”, a maternidade é um curso superior que exije a leitura de livros e debates em “grupos de trabalho”. A maternidade é um clã, a paternidade é individual. Isso coloca algumas limitações ao “produto” pai. Que as crianças faziam cocô e que cairia para mim fazer a troca eu sempre soube. Isso de acordar pela madrugada também nunca foi surpresa. Agora, que as crianças dormem abraçadas com um pedaço de pano inseparável, isso é novo.

Na vez passada por aqui, escrevi sobre viagens. A naninha é tão onipresente que podemos falar sobre ela em tudo, também em viagens. Por exemplo, quando vamos viajar para fora, minha pergunta mais solene é “conferiu os passaportes e a naninha?”. Realmente, o verbo “lembrar” está no começo de tudo. O check-list da infância é longo – mamadeira, chupeta, fralda, papinha, blusinha, remedinho, brinquedinho e alguns outros “inhos”. Todos esses itens, pelo menos, ainda que não seja bonito um materialismo tão fatalista, caso se percam, o problema se resolve comprando outro. Com a naninha é diferente. Ela se individualiza, ganha cheiros, matizes, rasgos e dobras. O bichinho perde um olho. A criança se acostuma com a textura. Deita com dois dedinhos passando a ponta da naninha que cai sobre o rosto. Com a naninha, o verbo esquecer ganha uma sombra terrível. O verbo perder.

naninha 03
Imagens: Márcio Schusterschitz / arquivo pessoal

 



2 comentários

Add yours
  1. monica

    Consegui me enxergar perfeitamente neste texto. Talvez o substantivo naninha (ou “pi”, no caso da minha filha), esteja no gen pois sou irmã do autor do texto. Certa vez, indo de Poços de Caldas, cidade onde moro, com destino a Belo Horizonte, após já termos rodado por 2 horas, constatamos a ausência do famigerado “pi”, a naninha da minha filha: não tivemos dúvidas e em prol da paz de espírito, voltamos 150 km para buscar o “pi”.


Post a new comment