pedeamora

Um pai, um pé de amora e o tempo

Minha filha mais velha mudou de colégio esse ano. Dois dias depois do início das aulas, já havia um grupo de mães no Whatsapp. Nós, que somos preocupados com nossos filhos nesse mundo digital, também estamos nele. Muitas vezes, por aí, nossos filhos são nossos assuntos nas redes sociais. Isso, ainda que, vez ou outra, façamos uma comparação sobre nosso tempo com os dias de hoje. Aparentemente, algumas horas, temos uma relação mitológica com nossos anos de infância, com a rua, com os jogos, com as árvores.

Um dia desses para trás, essa minha filha que comecei falando dela subiu em um pé de amora. Na verdade, ela ficou embaixo, olhando um casal de irmãos que passou para cima, de um galho para o outro. Como estava por perto, no parquinho, pude ver isso – o que me deu um saudosismo. Aí, não sei se pela cena de liberdade externa ou pela incapacidade genética de qualquer proeza física. Quando era criança, subi, do verbo ficar no limite do tronco, em mangueira, pé de goiaba e jabuticabeira. Amora era uma coisa que sempre tive como transcedente demais. O que indica outra coisa da minha infância, a relativa simplicidade das opções – poucos brinquedos, poucos canais de televisão, pouco restaurante, poucos tipos de fruta e assim por diante. Acho que pensamos que nossa infância era mais simples, mais livre, menos violenta e com menos janelas para riscos – como essas novas ameaças digitais. Mas nós também vivemos nesse mundo das nossas crianças. Porém, como adultos.

Montagem pé de amora
Imagens: arquivo pessoal Márcio Schusterschitz

Como adultos temos problemas de violência, trânsito e o que mais for e ambiguidade de muitas escolhas e novas tecnologias. Quando vemos nossos filhos, podemos pensar que vivemos em um mundo diferente do deles, pois fomos criança em um mundo mais lento e menos digital. Mas a paternidade ou a maternidade vive com esse risco comparativo. Comparamos as opções dos nossos filhos, nossos filhos com outras crianças e essas crianças com nós mesmos, quando crianças. Mas, como no pé de amora, uma hora ou outra, podemos ter uma certa calma. Nem sempre nossos filhos são um assunto, uma comparação ou estão ameaçados. São momentos em que eles estão e nós estamos não muito mais do que apenas no momento.



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