Crianças com deficiência e o desafio da superproteção

Crianças com deficiência e o desafio da superproteção

Quando uma mamãe ou um papai têm um filho com deficiência, às vezes pode parecer, para eles, que o mundo vai acabar. O choque é grande, e se inicia um período de luto. E não há nada de errado nisso. Quando esperamos um filho, fazemos muitos planos para ele ou ela, e nenhum deles inclui problemas ou desafios, não é mesmo? O ser humano é assim mesmo, cheio de expectativas de felicidade.

Aos poucos, os pais vão fazendo o luto, aprendendo a lidar com a criança e a amá-la como ela é. Muitos desafios estarão presentes no cotidiano dessa família, mas certamente ela vai amadurecer muito com o aprendizado.

Estreando minha coluna no Real Maternidade, hoje gostaria de conversar com vocês sobre um conflito muito presente nas famílias que têm crianças com deficiência: querer evitar, a todo custo, que o filho viva situações que vão deixá-lo triste. Vamos combinar: quem é que quer ver tristeza na carinha do filho, tenha ele uma deficiência ou não? Não, eu não sou mãe de uma criança com deficiência, mas tenho uma deficiência e senti na pele quanto foi difícil para meus pais, principalmente para minha mãe, abrir mão da superproteção. Definitivamente, eles dariam qualquer bem para evitar que eu sofresse.

Uma situação comum é a criança enfrentar preconceito na escola, o que pode evoluir até mesmo para bullying. E isso, é importante dizer, não ocorre exclusivamente com a criança que tem deficiência, mas com todas as crianças marcadas por alguma diferença, seja na cor da pele, na forma de viver sua afetividade ou outra qualquer. Talvez a situação fique mais desafiadora se a criança tiver uma deficiência que comprometa sua comunicação com os coleguinhas, ou se estiver enfrentando dificuldades de fortalecer a autoestima.

Aceitar o diferente é um grande desafio para a espécie humana. Nosso aprendizado ancestral é de desconfiar daquele pertencente a outra tribo, a outro povo, que nos primórdios era visto como concorrente na luta pela sobrevivência. Não era amigo e estava longe de ser considerado irmão de humanidade.

Os tempos passaram, mas a desconfiança e a animosidade continuam coladas ao nosso comportamento. E acredito que será preciso uma longa desconstrução/des-formação para que aprendamos que o diferente não é inimigo. Jung foi além: falou do diferente que está dentro de cada um — e ao qual é ainda mais difícil amar. Porque o desafio está muito mais dentro do que fora.

Acredito que eu aprendi a não discriminar sentindo na pele a discriminação. Fui olhada com desconfiança durante anos. Tinha colegas de faculdade que me pediam carona, mas tinham medo de que eu não soubesse dirigir “aquele troço” direito (eles se referiam à adaptação do carro). Uma vez fui síndica no meu condomínio, e um advogado que assistiu a uma das reuniões me parabenizou, porque não achava que uma pessoa com deficiência fosse capaz de se sair tão bem naquele papel.

É claro que esses comportamentos me entristeceram. Mas cedo aprendi que eu não iria longe se não cuidasse da minha autoestima — e que autoestima não é verniz. É profunda construção de se respeitar e se amar como se é, ou como se está.

Precisamos ajudar nossas crianças, com deficiência ou não, a ter uma autoestima fortalecida. Superprotegê-las e evitar a qualquer custo expô-las a circunstâncias que vão desafiá-las não será uma boa forma de colaborar para isso. Pelo contrário: poderá levá-las a desconfiar das próprias capacidades.

Não é possível impedir que os pequenos experimentem frustração e tristeza. É humano ter emoções e sentimentos, e eles têm utilidade; ajudam-nos a amadurecer e ficamos mais fortes ao conseguir elaborá-los. Querer impedir que nossos queridos sofram é abortar o processo de desenvolvimento que levaria a larva a se transformar em borboleta.

Crianças com deficiência
Crédito Foto: Marta Alencar – Alta Estima Fotografia Inclusiva

A psicanalista Evelin Pestana nos ajuda a compreender a situação ainda por outro ângulo: “Criamos nossos filhos buscando evitar, de todas as formas, que eles sofram. O que buscamos, na verdade, é não termos que lidar com certas dores que, ao longo da vida, fomos evitando sentir em nós mesmos. Quando exigimos de nossos filhos que eles sejam fortes, vitoriosos, que não sejam fracos, ‘moles’, estamos ao mesmo tempo ensinando a eles que não somos capazes de acolhê-los caso eles precisem de nós. São muitas, entretanto, as dores que, uma vez reconhecidas como tais, se tornam o fundamento de relações confiáveis, genuinamente humanas. A dor pode aproximar pais e filhos. A necessidade de ser sempre forte, não. Fomenta a solidão”. 

Está nos cinemas um filme de animação que me parece muito útil para nossas reflexões sobre o tema: Divertida Mente. Ele mostra o que acontece quando uma garota tem que enfrentar uma mistura de sentimentos e emoções. A história se passa na mente de Riley, “onde Alegria – narradora do filme – trabalha para manter a menina sempre feliz. É ela que apresenta seus colegas de trabalho. O Medo a protege dos muitos perigos do mundo. A Nojinho previne que seja envenenada (‘tanto física como socialmente’). Raiva garante que a menina não sofra injustiças. E há também a Tristeza, que ninguém sabe muito bem para que serve”. Clique aqui para ler o bom texto de Daniel Martins de Barros e, claro!, veja o filme. Animações não são apenas para crianças…

Afinal, o que acontece quando nos impedimos de ficar tristes? Seria esta uma conduta geradora de saúde? Tudo que nossos filhotes precisam é ter pais humanos e amorosos ao seu lado, não pais perfeitos. A tristeza passa; o aprendizado e o vínculo permanecem. Para sempre.

#DicaReal

Em todos os meus textos, vou deixar dicas sobre o universo da pessoa com deficiência, combinado?

Evite se referir à criança com deficiência como “criança especial”. Especiais são todas as crianças! A que tem uma deficiência se distingue por suas características singulares, mas, ainda aí, que criança não tem singularidades? Diga apenas “criança que não tem deficiência” em contraposição à que tem, e que não deveria ser chamada de criança “normal”. Afinal, quem é que decide o que é normal? E assim vamos construindo uma sociedade com menos exclusão, já que nossa maneira de nos referir às pessoas carrega nossos valores e nossas crenças!



4 comentários

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  1. Consolação Cattony

    Lindo texto! Precisamos muito aprender a banir de nossas crianças essa “velha opinião formada sobre tudo”….
    Tarefa difícil mas não impossível!
    Parabéns Laura Martins e Luciana


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