Carolina e Clara

Cadeirante pode ter filho?

Ainda hoje, no início do século XXI, quando a humanidade se considera tão avançada, muitas pessoas ainda se assustam quando deparam com uma cadeirante (ou um cadeirante) com seu filhinho no colo, ou de mãos dadas com seu parceiro afetivo. Não são poucos os que ainda ignoram que uma mulher com deficiência pode engravidar e parir, e um homem com deficiência pode ser pai.

Muitos mitos cercam o mundo das pessoas com deficiência, e um deles é o de que elas são assexuadas. Faz muitos anos (mais de 20!), mas ainda me lembro do que contou uma amiga com deficiência física (ela usava aparelhos ortopédicos). Ao pegar um táxi, com seu barrigão de gestante, o taxista perguntou, indignado: “Quem foi que fez isso com você?”. E ela respondeu: “Foi meu marido, e eu gostei muito!”.

Nessa interlocução, vemos ser configurado todo um contexto: o taxista julgou que possivelmente a gravidez fosse resultado de estupro, porque certamente, à época, não passava pela cabeça do mais comum dos mortais que a pessoa com deficiência tinha desejos, como qualquer uma; era desejável, como muitas; e podia engravidar, como tantas outras…

A gestação de uma mulher cadeirante definitivamente não é cercada de facilidades. Ela enfrenta os desafios e riscos que qualquer mulher experimentaria, acrescidos das especificidades que sua condição impõe. Os motivos que levam uma pessoa a necessitar de cadeira de rodas são os mais diversos. Cada um deles apresentará suas particularidades, demandas – e riscos. Uma pessoa com paraparesia apresenta restrições e necessidades diferentes das enfrentadas por uma com esclerose múltipla, por exemplo. Mas as situações podem ser abordadas, e os riscos minimizados, com consultas a profissionais de saúde competentes e cuidadosos. Uma medicina humanizada é meio caminho andado.

O que importa é que, se a mulher não tiver nenhum impedimento com relação à fertilidade, poderá engravidar do modo tradicional, fazendo sexo. Caso contrário, poderá procurar um serviço de reprodução assistida, ou adotar uma criança, alternativas que são igualmente válidas e dignas.

Tenho uma amiga usuária de cadeira de rodas que foi uma precursora. Há cerca de 30 anos, quando muitas pessoas com deficiência ainda viviam segregadas, ela engravidou e teve uma linda filha. De vez em quando, tenho notícias de mulheres com sequelas de poliomielite (paralisia infantil) que engravidaram na mesma época. Estas foram excepcionalmente corajosas, porque os médicos não sabiam lidar com a gestação em pessoas com deficiência. Sinto informar, mas ainda hoje talvez vários não saibam. Entretanto, a própria demanda exigirá deles que se capacitem.

Felizmente, apesar desse desconhecimento, com frequência temos notícias de cadeirantes grávidos, mulheres ou homens, que estão vivendo seus sonhos de maternidade/paternidade. E você já parou pra pensar que essa também é uma forma de inclusão? É necessário que os médicos se informem, que as clínicas e hospitais estejam cada vez mais preparados para atender ao público que deseja ter filhos, ainda que haja dificuldades para isso.

E como a mamãe cadeirante lida com o pequeno, se muitas vezes lhe faltam condições até mesmo de segurá-lo no colo? Ah, isso eu não vou te contar não… Vou te indicar um livro que conta a experiência de mulheres com deficiência que decidiram ser mães, de forma planejada ou não. E uma delas é tetraplégica, ou seja, os quatro membros foram afetados. Mesmo assim, ela teve gêmeos! Se essas cadeirantes passaram por dificuldades? Sim, inúmeras. Mas alguém ainda duvida da capacidade humana de ir aonde nunca pensaria estar?

Todas as mulheres – e homens – precisam ter preservado o direito de ter filhos, se assim desejarem. Por isso, é importante que os serviços de saúde estejam preparados para acolher com dignidade, preparo e carinho as pessoas com deficiência que têm o sonho de viver uma gestação. 

Indicação de leitura:
Maria de rodas: delícias e desafios na maternidade de mulheres cadeirantes
Autoras: Carolina Ignarra, Flávia Cintra e Tatiana Rolim / Scortecci Editora

Livro Maria de Rodas

Entrevista com as autoras:

#DicaReal

Não é difícil chegar à conclusão de que a expectativa para os próximos anos é ver aumentar o número de pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida. Sabe por quê?

O tempo médio de vida da população brasileira vem aumentando significativamente nos últimos anos. Em decorrência disso, aumenta a incidência de idosos com mobilidade reduzida. Além disso, num mundo inseguro e violento como o nosso, novas pessoas adquirem deficiências todos os dias, em virtude de acidentes de trânsito, assaltos ou conflitos armados. Temos de acrescentar nesse grupo as gestantes, os adultos com deficiência temporária (em virtude de uma fratura, por exemplo) e pessoas conduzindo carrinhos de bebê.

Lembra a arquiteta Thais Frota que “Se o lugar não está pronto para receber TODAS as pessoas, o lugar é deficiente”. 

Estamos vivendo em cidades deficientes, que ainda não conseguiram incorporar a necessidade de estarem prontas para acolher qualquer pessoa. É útil para toda a sociedade que os equipamentos sejam acessíveis: ruas, escolas, hospitais, praças, cinemas e tudo o mais.

Não precisamos ter lugares deficientes, precisamos? Cada um de nós pode fazer o que estiver a seu alcance para remover e evitar barreiras. Todo mundo agradece!

>> A imagem linda que ilustra este post é da Carolina Ignarra e sua filha Clara, imagem via G1 



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