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É Pesado Ser Mãe?

Sobre os ombros das mães instala-se um grande peso patrocinado por mitos tão infundados quanto perversos. Como se fossem seres mágicos, não humanos, elas parecem ser alvo de projeções específicas relacionadas a alguns “tem que” sem sustentação lógica, como:

1- “Toda mulher tem que querer ser mãe”

Se nem todo homem quer ser pai, porque toda e qualquer mulher deveria querer ser mãe? Sofrendo o resultado de uma severa imposição biológica/cultural sobre o gênero, é possível que uma mulher sem essa aspiração sinta-se fortemente culpada. Conheço mulheres incríveis que vivem seus papéis de esposas, profissionais, amigas e cidadãs, por exemplo, sem lhes passar pela cabeça a maternidade.

2- “Toda mãe tem que amar seus filhos de forma idêntica”

De acordo com esse mito existiria uma espécie de detector ou sensor de amor que faria as mães contabilizarem sentimento para distribuírem de forma igual e equitativa com a prole. Seres humanos amam seres humanos de maneiras absolutamente particulares, subjetivas, e isso diz respeito a aspectos como sintonia em comunicação e afinidades que uma mulher pode ter com um filho e não ter com outro.

3- “No coração da mãe sempre cabe mais um”

A partir dessa crença uma mãe seria fonte inesgotável de amor e acolhimento e o seu coração, simbolicamente, se mostraria qual uma imensa casa de portas eternamente abertas a seus filhos. Para ser mãe ela teria que não cansar de acolher, não mudar, não ter propósitos pessoais e abrir espaço para agir e sentir da mesma forma com todos os que chegassem. Quem aguenta?

4- “A mãe tem que deixar de lado suas próprias aspirações, seus desejos e prazeres, para sacrificar-se pelos filhos”

Será que se percebe a crueldade de um mandato como esse? É obvio que boas mães e bons pais, se não forem gente “sem noção”, assumirão a responsabilidade por trazerem ao mundo os seus rebentos. Entretanto, colocar-se no lugar de mártir, daquele que se sacrifica o tempo todo pelos filhos, que não tem propósitos pessoais, é uma confusão que desalenta e oprime. Decorre sobretudo de se entender erradamente ser mãe como missão e não como papel.

5- “Intuição de mãe não erra” e “coração de mãe não se engana”

Não sei se o pior dessas expressões que, para mim, são faces do mesmo mito, é a arrogância explícita do poder relacionado a nunca equivocar-se ou o implícito peso da responsabilidade total sobre o destino dos filhos. A pergunta: “onde foi que eu errei?” diante de besteiradas na vida de um filho, algo comum de se ouvir, afiança que a mãe deveria saber tudo e ter impedido que os rumos dos filhos fossem sombrios. Enfim, teria que guardar no coração uma mágica bola de cristal.

Há inúmeras outras mentiras sobre as mães, que de tão repetidas acabam ficando com cara de verdade. As aqui citadas são as que particularmente considero mais fortes e malvadas.

Minha intenção era trazê-las à tona e pedir aos filhos que problematizassem suas crenças, vendo a pessoa que lhes deu à luz de forma diferente. Antes de ser mulher e mãe trata-se de um ser humano.

Em muitas situações dentro de sessões de terapia ou de Coaching Ontológico – que se dedica também a explorar a emocionalidade – vemos pessoas sofrendo por não corresponderem àquilo que a “vida” espera delas. Mitos como esses acabam impondo dizeres e fazeres que trazem dor a muitas mulheres.

Antes de tudo, sendo gente, as mães podem sentir-se donas de seus rumos. Elas são seres maiores que o papel que têm e que implica dar amor a seus filhos.

Quero fechar esse texto lembrando um episódio da vida do grande Sigmund Freud que, segundo dizem, diante de uma mãe cheia de dúvidas com um bebê pequeno nos braços, que lhe perguntava o que fazer para educa-lo adequadamente, respondeu: “Minha senhora, não importa o que faça, ainda assim fará errado.”

Ser mãe é ser gente. E como errar é humano, as mães também têm o direito de errar, e o de não amar, e o de não corresponder às expectativas, e o de, como qualquer outra pessoa, também seguir seus próprios caminhos.



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