Quando a diversidade chega ao mundo dos brinquedos

Quando a diversidade chega ao mundo dos brinquedos

A sociedade de consumo tradicionalmente nos impõe padrões. Eles aparecem nas roupas que encontramos disponíveis nas lojas, nos atores escolhidos para os papéis de galã ou heroína das telenovelas, nas modelos magérrimas das capas das revistas, nos comportamentos que nos são ditados por instituições religiosas, pela escola tradicional ou pela mídia. Podemos observar a ditadura dos padrões, por exemplo, quando queremos comprar itens de enxoval para os bebês: eles são azuis, para meninos, e rosa, para meninas. E a imposição de padrões aparece também nos brinquedos, já tinha se dado conta disso?

É assim que o brincar, algo tão importante para o desenvolvimento infantil saudável, fica comprometido. Sabe por quê? Porque, no mundo dos brinquedos, em que os miúdos vão exercitar a fantasia, eles nem sempre se sentem representados. Onde estão as bonecas que representam as crianças negras, ou as orientais, com as quais as crianças dessas etnias possam se identificar? E você já tinha parado para pensar que não encontramos brinquedos que representem as crianças que têm alguma deficiência? 

>> Para saber mais sobre a importância dos brinquedos que representam as diferenças, clique aqui  e aqui.

Alguns fabricantes, ao longo dos anos, lançaram bonecas (os) “diferentes”, mas apenas em edições limitadas; nenhum, até agora, havia incorporado a ideia como parte de seu catálogo. Mas o assunto tem estado na mira de pessoas e de organizações sociais faz tempo, como é o caso da Toy Like Me, que está na militância para que as crianças possam se ver representadas nos brinquedos.

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Brinquedos produzidos pela Toy Like Me, reproduzindo características individuais. (Créditos: Divulgação)

Eis que, na última semana de janeiro, fomos surpreendidos por dois grandes fabricantes que entenderam a demanda do mercado. Mattel e Lego saíram na frente e lançaram uma coleção de brinquedos que incorporam as diferenças. “O movimento é uma resposta a críticas sobre padrões de beleza inatingíveis impostos pela indústria e falta de diversidade nos produtos”, explica a Folha, em sua edição on-line do dia 29. Leia mais aqui.

Autoestima saudável

Não é nem um pouco simples o processo de autodescoberta, em que a pessoa vai se enxergando e talvez se aceitando como é. Aceitar-se é um processo delicado, que leva à saúde da mente e, por consequência, à saúde do corpo, uma vez que muitos processos de adoecimento físico têm origem em dificuldades emocionais. 

Não é simples construir uma autoestima saudável quando não nos encaixamos nos padrões vigentes. A criança “diferente” pode vir a ser vítima de bullying ou se transformar em um adulto que tenta insistentemente se encaixar nos padrões para ser aceito, o que pode gerar distúrbios como anorexia, por exemplo, entre muitos outros.

Por isso, são extremamente bem-vindos os brinquedos que retratem a diversidade humana. A Mattel lançou novos modelos de Barbie, que agora pode ser alta, baixa ou mais curvilínea e até ser encontrada em sete tons de pele. A Lego apresentou bonecos em cadeiras de rodas na feira de brinquedos de Nuremberg, na Alemanha.

 

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Mattel anuncia que Barbie terá três novas versões: “petite”, “curvilínea” e “alta”; variando entre 7 tons de pele, 22 cores de olho e 24 penteados. (Créditos: Divulgação)

LegoLego apresentou na Feira Internacional de Brinquedos de Nuremberg, na Alemanha, seu primeiro boneco de cadeiras de rodas. (Créditos: Divulgação)

Mas não, as companhias de brinquedo não são “boazinhas”, nem mesmo estão preocupadas com a autoestima das nossas crianças. O que ocorre é que as vendas estavam caindo, exatamente porque muitas pessoas não se sentiam representadas. Assim, as empresas precisaram “reinventar” seus produtos para alavancar as vendas e atender à demanda popular. 

Não importa, porém, a razão da mudança: os resultados parecem muito bons. E ela indica, a meu ver, algo muito maior. Quando um segmento, que durante décadas foi considerado “defeituoso” ou “errado” pela sociedade, deseja e reivindica ser representado em um brinquedo, isso revela que houve uma transformação na forma como as pessoas se veem. Note bem: se me considero feia e errada, evito me olhar no espelho, não é assim? Mas o brinquedo é um tipo de espelho, concorda? Então, quando uma pessoa quer um brinquedo que se pareça com ela, isso é sinal de que sua autoestima está fortalecida. 

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Créditos: Marta Alencar – Alta Estima Fotografia Inclusiva

Que bom para nossas crianças, que terão muito mais chances do que nós de crescerem se achando bonitas, se sentindo aceitas, respeitadas e incluídas. Não, não é o paraíso na Terra, mas é um bom começo, não é mesmo?

#DICA REAL

Minha sugestão é que você presenteie suas crianças com livros, brinquedos, filmes que mostrem pessoas consideradas diferentes sendo incluídas, ocupando o papel de heróis e heroínas, não por caridade, mas porque têm tantas habilidades, tanta beleza e tantos méritos quanto as demais, que estão mais próximas de se encaixar nos padrões vigentes.

Quando você toma essa atitude, está colaborando por um mundo melhor, no qual a diversidade seja aceita com naturalidade. Este é um mundo bom para todos! Cada um de nós pode, com certeza, fazer algo para construir um planeta em que nenhuma criança se sinta pior que a outra porque não faz parte de um padrão. 



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