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Segundo filho e o que eles ensinam

Você se casa e perguntam se vocês terão filhos. Você tem o primeiro filho, perguntam se você vai parar por aí. Você tem o segundo, duas meninas, perguntam se você não quer um menino… Poucos assuntos dão tanta liberdade aos outros sobre sua vida quanto os filhos. Não fala dessa nova era de politização da infância; continuam naquele hábito antigo de se intrometer. Faz parte, de qualquer forma.

Aqui em casa tivemos duas filhas, sem precisar preencher formulário para ninguém. E assim, você fica com duas crianças, uma de um jeito, outra do outro. A coisa mais em comum são as roupas! A filha pequena pouco tem conhecimento sobre o novo; fica mais divertido no “dia do brinquedo” na escola pois chega na sala com o brinquedo já sem cor e sem pedaços…

De resto, você quebra a cara. Quebra a cara porque acha que a filha mais velha é um precedente e, quando vê, o que funcionava para de funcionar. A personalidade é algo incrível (até que chega o dia em que o pediatra, só de ver sua filha pequena, parecendo a reencarnação dos visigodos, descreve como ela é. Ele conclui, depois de dúzias de adjetivos, “que os mais novos são assim; eles precisam ser assim”). Mas as duas crianças continuam, cada uma com sua maneira.

A independência da mais nova é apenas aparente. Ela tem a fascinação pela mais velha. Aqui em casa, ao menos, a mais velha é amiga, ela ajuda e brinca. Mas por outro lado, há um assunto divisivo: a televisão. Não divisivo para as doutrinas diversas e pelo espectro ideológico da infância; simplesmente não gostam dos mesmos desenhos. Não vivem no tempo em que o programa infantil era ESSE ou ESSE e, se quiser, muda de canal!

Os desenhos animados estão divididos por faixas de idade cada vez mais finas e as crianças, assim como os fósseis, não transitam pelas eras geológicas ou pelas faixas etárias do entretenimento infantil. Elas largam a Dora como largam a fralda ou a chupeta! E reparam em quem ainda gosta; como reparam em quem ainda usa fralda ou chupeta… Digo chupeta, porque mudei de cidade. Na minha época, era bico. De qualquer forma, até para tirar a chupeta – ou, para os mais puristas – o bico, para cada uma é de um jeito.

Para a primeira, foi criada uma entidade mitológica com o nome próximo ou assemelhado a “amiguinha da chupeta” ou “rainha dos bicos”. Essa maga da fase oral retirou o instrumento de pacificação social emborrachado com um roteiro praticamente elaborado pelos redatores da Disney. A mais velha sempre se comunicou melhor e com isso, recebeu melhor a comunicação. Usar o processo comunicativo com alguns truques acaba funcionando bem para ela. Já a mais nova não quer saber tanto assim de papo e as coisas precisam acontecer sem muita conversa.

Mas os pais aprendem que a reação à ação, na infância, é o ruído – e haja ouvidos! Dois filhos são a duplicação da relação com o tempo. A idade maior e menor não indicam um necessário sequenciamento. Além de cada um ter sua idade, cada um tem também seu tempo… e seu modo.

Nem sempre é uma relação de soma. Pode parecer uma multiplicação! E há nisso muitas coisas fantásticas. Uma delas é saber que a vida, desde seu começo, não se deixa prender. Aprendi que a vida SE ESCREVE; não se lê.

Obrigado, meninas!



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