olhar

A importância do olhar de quem cuida

Quando pensamos no nascimento de um bebê, no nascimento de uma mãe e de um pai, inevitavelmente lembramos do olhar. Aquele olhar da mãe que recebe seu bebê na sala de parto, do olhar do pai que observa a dupla com orgulho e de admiração, e o olhar fixo e profundo do bebê observando sua mãe/ seu pai/ seus cuidadores quando é amamentado ou usa a mamadeira.

De acordo com a psicóloga Caroline Brandalise, à medida que vai crescendo, a criança observa o mundo e segue o objeto e as pessoas pelo olhar. Aliás, a capacidade de relacionar-se com o olhar é fator observado de  desenvolvimento psicoemocional.  A mãe precisa desenvolver, ainda no puerpério, a capacidade de colocar-se no lugar do bebê, proporcionando o que ele precisa para se sentir seguro. O olhar da mãe para o seu bebê é uma condição importante que colabora para o desenvolvimento da personalidade de forma integrada.


Crédito foto: Bel Ferreira Photography

Pode-se dizer que o rosto e o olhar da mãe para o seu bebê é o precursor do espelhọ̣: o que o bebê vê quando olha para o rosto da mãe é ele mesmo. Como se a mãe refletisse no bebê o seu próprio humor, suas angústias e medos. Quando os olhares não se encontram, muitos bebês têm a experiência  de não receber de volta o que estão dando: eles olham e não vêem a si mesmos e vão perdendo a espontaneidade, sendo seus desejos abafados. Frente a uma mãe incapaz de sentir suas necessidades, o bebê renuncia à esperança de vê-las satisfeitas e adapta-se aos cuidados maternos (ou de cuidadores) que não lhe convém, como se ajustasse aos desejos dos outros para ser aceitos.

“As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar.”

Leonardo da Vinci

 

E as crianças que perderam o olhar de suas mães e de seus familiares? Como acontece o olhar em uma casa de passagem?

Uma casa de passagem é um lugar onde existem muitas crianças que não têm individualidade e tampouco um olhar afetivo que estruture a personalidade e seja estímulo para o desenvolvimento das habilidades emocionais. São crianças parecidas pela história de abandono, maus-tratos e negligência no início da vida. Crianças que viveram um trauma no início da vida,  que implica uma quebra de confiança no mundo, no ambiente, nos adultos e nos olhares. Antes do abandono, o  bebê ou a criança construiu uma capacidade de acreditar, e a família e o ambiente se ajustou a ela, mas depois fracassou.

Nesta linha de pensamento, podemos afirmar que as crianças que estão em uma casa de passagem foram privadas da relação familiar pelos mais diferentes motivos e que nesse ambiente elas estarão mais protegidas. Nesta realidade, para a preservação da saúde mental, será constante a busca pelo olhar substituto na tentativa de resgatar o olhar perdido que obstaculizou o livre desenrolar desse processo.  E quem olha para quem não é olhado?

“Muito além do Olhar” – Projeto Bel Ferreira Photography

Neste contexto da falta de olhar, entra o lindo trabalho das fotógrafas Bel Ferreira e Dani Kmetiuk, que levaram até seu estudio as crianças do Lar Dona Vera – em Curitiba – para fazer fotos de 23 crianças que estão aguardando pela adoção. As lentes da fotógrafa, neste caso, servem como “alguém que está olhando”. E o projeto assume importante papel para que as crianças, a partir do olhar da fotógrafa, se reconheçam como indivíduos e resgatem parte importante de sua individualidade. Dessa forma, elas têm o registro de uma época, que mesmo após a adoção, será sempre parte de sua personalidade.

Bel Ferreira com as crianças do Lar Dona Vera em seu estúdio – Crédito foto: Bel Ferreira Photography

Para Bel Ferreira, o maior motivador deste projeto veio pela sua própria experiência de vida. Até os 14 anos, Bel viveu com a avó e, após seu falecimento, passou por muitos “lares”, morando com tios, amigos, primos e outras pessoas queridas que a acolheram. A fotógrafa conta que sente muita falta dos registros de sua infância e dos momentos que viveu com essas pessoas. Nossa memória não consegue registrar tudo.

A minha vontade é retribuir as coisas boas que recebi da vida e proporcionar às crianças memórias que podem fazer muita falta num futuro

Bel Ferreira


Bel Ferreira com uma das crianças fotografadas do Lar Dona Vera, em Curitiba – Crédito foto: Bel Ferreira Photography

Acredito que um dia, ao olhar as fotos, essas crianças vão se lembrar de uma época distante, se reconhecer como eram, admirando seus lindos olhares e até mesmo aquele sorrisinho desdentado!

Bel Ferreira


Crédito foto: Bel Ferreira Photography

Uma prova de que cada um, à sua maneira, pode retribuir ao universo, as coisas boas que recebeu. E que nunca nos falte a capacidade de olhar e amar.

Beijos,

Carol e Luciana


Caroline Brandalise
Psicóloga, especialista em psicoterapia de orientação psicanalítica e psicologia escolar. Casada e mãe da Antônia, e “avó” do Nut, um cachorro fofo! Bem humorada, que gosta de ouvir histórias e conhecer pessoas. Gosta de viajar e de comemorar as coisas boas da vida. Acredita que a maternidade não só muda a vida da mulher: ela melhora!

 Luciana Cattony
Luciana é publicitária, designer e mãe do Henrique. É apaixonada por pessoas educadas e bem humoradas, internet, doce de abóbora com coco e pelas coisas simples da vida. Criou o projeto Real Maternidade na tentativa de levar leveza e alegria às mães e famílias. Ela acredita que com leveza e alto astral tudo pode ser mais fácil! 🙂


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