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Infantolatria: O rei saiu da barriga, e agora?

“Uma criança mimada será um adulto infeliz”
Leandro Karnal

A expressão “está com o rei na barriga” teve sua origem  na época da monarquia portuguesa, por ocasião da sucessão do trono. Nesse período uma das notícias mais festejadas pelo reino era a de que o rei teria um herdeiro para sucedê-lo. Por isso, quando a rainha ficava grávida do soberano, ela passava a ser tratada de uma forma mais cuidadosa por todas as outras pessoas do reino, pois estava carregando um futuro príncipe ou princesa! Toda essa importância fazia que a gestante começasse a se sentir mais importante que as demais, justamente por ter um descendente do rei na barriga.

E quando o rei “sai da barriga” e continua sendo a majestade? E quando a família se adapta aos desejos do filho para agradá-lo e não frustrá-lo? E quando abrem mão de programas e atividades em família conforme as preferências do filho? E quando a criança tem dificuldade de aceitar o não e para não frustrar, para não ter contato com a “brabeza”, lançam mão de estratégias que distraem do foco do possível conflito? E quando a  criança sempre escolhe o que vai vestir e o que vai comer na hora das refeições? E quando a vida do casal fica abalada em função das decisões da criança? E quando deixam de ser marido e mulher pra ser apenas pai e mãe?

Isso chama-se Infantolatria.  É o termo usado quando os pais idolatram o filho ao extremo, de forma que ele passe a comandar todas as ações da família. Estimulados pelos pais e pelo ambiente em que vivem, essas crianças  acreditam serem os mais especiais, merecendo um tratamento melhor, com mais condições e direitos que os outros.

Podem achar-se mais inteligente que os outros, podem apresentar dificuldades de socialização com crianças da mesma idade, podem tornar-se adultos inseguros, com potencial para desenvolver depressão e dificuldades de relacionamento. Por vezes, não sentem os adultos como pessoas que transmitem segurança.

SUA MAJESTADE, O BEBÊ

É verdade que quando uma criança nasce, é necessário colocá-la no centro das atenções, para que sejam estabelecidos o vínculo emocional e afetivo e as rotinas que vão, aos poucos estruturando a personalidade do bebê.

É necessário que os pais, e especialmente a mãe, fiquem disponíveis para atender todos os desejos e as necessidades que estão por vir. Nos primeiros meses de vida, as solicitações são intensas, novas e sem rotina alguma. Não é à toa que chamamos a amamentação de “livre demanda”. Livre demanda também serão as solicitações do bebê.

À medida que o tempo vai passando, os pais devem fazer, aos poucos,  a adaptação à realidade que rodeia a criança e a mantinha no centro. Os pais vão traduzindo em palavras, gestos e contato o sentimento do bebê, assim ele será capaz de  tolerar a espera pela mamadeira, pela troca da fralda e para ser atendido. Nesse momento, vai entender que as coisas funcionam à sua volta e que ele faz parte desse contexto.

Chamamos de narcisismo a fase onde a criança está absorta em si mesma. Ele é  necessário para que a criança desenvolva sua personalidade, reconhecendo os próprios sentimentos e desenvolvendo a autoestima.  Se passada a fase , o  comportamento ainda mostrar-se egocêntrico e individualista, cabe aos adultos ensinar-lhes os limites.

Afinal, criar uma criança é fácil! Basta satisfazer todas as vontades, como o reizinho ou a majestade. Mas,  educar uma criança é trabalhoso! Estabelecer rotina, lidar com a frustração, fazer e retomar exaustivamente as combinações, estimular a autonomia e independência, ensinar que a criança tem responsabilidade e consequência pelas escolhas é uma tarefa intensa e cansativa.

É fato que a família influencia de maneira direta as relações das crianças na vida em sociedade. Não existem receitas, tampouco respostas simples. Recorre-se a certeza de que limites, valores morais e éticos são fundamentais para que as crianças aprendam a  se desenvolvam como adultos. E que muito mais que pelas palavras, as crianças aprendem pela observação das atitudes,  da estabilidade emocional e da forma como os adultos se relacionam. Já pensou nisso?



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