bilinguismo

Bilinguismo: saiba por que o Brasil está ampliando o número de escolas bilíngues

Até o início do ano 2000, elas eram poucas no Brasil. O boom das escolas bilíngues veio mesmo com a abertura da economia, aliada aos avanços tecnológicos, à redução de barreiras entre os países e à inclusão do segundo idioma nos currículos de candidatos que disputavam uma vaga no mercado de trabalho.

Cada vez mais preocupados com o bom desempenho dos filhos durante a vida escolar, os pais se veem às voltas em como munir as crianças de ferramentas que lhes garantam uma profissão. Além disso, não é de hoje que o segundo idioma deixou de ser um diferencial e passou a ser pré-requisito no que se refere à empregabilidade.

Há quem diga que o bilinguismo, se iniciado ainda durante a infância, pode prejudicar o aprendizado da língua materna, mas essa teoria não tem base científica.

Gisvaldo Araújo Silva é licenciado em Letras (Inglês, Português e respectivas literaturas), mestre em Linguística Aplicada e doutor em Educação, além de ter mais de 20 anos de experiência no ensino de inglês em cursos livres, nos ensinos básico e superior. Atualmente, ele preside a Associação Brasileira de Professores de Língua Inglesa da Rede Federal de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico (ABRALITEC).

Para o especialista, a aquisição simultânea de duas línguas, conhecida como bilinguismo, pode atrasar um pouco o surgimento da linguagem verbal (palavras, frases, expressões ou gestos, se for o caso da língua de sinais). “Entretanto, há um número substancial de pesquisas que demonstram que isso não compromete o desenvolvimento da linguagem nem seu resultado final. É comum a produção de frases que usam vocabulário de uma língua e flexões de outra”, comenta.

Gisvaldo cita, inclusive, o filho, que foi introduzido à língua inglesa desde o nascimento. “Ele já produziu construções como “pai-dad” – ao invés de papai – e “ele está “fightando” – numa mistura do verbo fight (lutar) em inglês e a flexão de gerúndio em português. Mas foram frases pontuais e, hoje, aos seis anos, são inexistentes.”

Para aqueles que pensam que crianças bilíngues demoram mais tempo a formar vocabulário, ele explica que se o contexto for rico em estímulos em ambas as línguas, se pais e/ou cuidadores leem para seus filhos e possibilitam que eles participem de atividades que envolvam o letramento em ambas as línguas, “o que costuma acontecer é um atraso no surgimento da linguagem, mas esse atraso desaparece num curto espaço de tempo e o resultado final é um vocabulário superior em ambas as línguas quando comparamos as crianças bilíngues às monolíngues do mesmo nível socioeconômico e cultural”.

Existe uma idade ideal? Quanto à idade para iniciar o bilinguismo, Gisvaldo garante que não existe uma faixa etária ideal para agregar o segundo idioma e diz não acreditar na máxima “quanto mais cedo, melhor”. “Esse pensamento tem sido desafiado por um número substancial de pesquisas da área. A criança pode ser exposta a uma língua adicional desde seu nascimento ou esperar sua introdução na escola, seja ela na educação infantil, como acontece na maioria dos contextos no Brasil, ou ainda nas séries finais do ensino fundamental.”

Para ajudar na escolha da idade ideal, ele sugere que os pais se façam alguns questionamentos, como: qual o objetivo de aprendizagem dessa língua? Quero que meu filho seja confundido com um falante nativo? Quero garantir que ele vá aprender a língua independentemente de seu interesse ou de um talento para área?

Se as respostas forem sim, entre os 5 anos e antes da puberdade são as idades mais indicadas. Caso contrário, adolescentes e adultos podem obter resultados iguais ou superiores àqueles que iniciaram antes, especialmente no tocante à leitura e interpretação de textos e ao uso da linguagem formal escrita.

No entanto, Gisvaldo alerta para erros comuns no ensino do bilinguismo. Na visão do especialista, duas ou três horas por semana de exposição à língua com itens de vocabulários isolados, exercícios voltados para repetição de regras gramaticais sem serem relacionados a seus significados, ensaio de poemas e músicas para festas dos dias dos pais e das mães ajudam pouco ou quase nada no desenvolvimento de uma língua adicional. “Se essa for a proposta da escola, fuja! Independentemente de quando seu filho começar, ele jamais alcançará fluência num segundo idioma por conta dessa abordagem pedagógica”, avisa.

 

Veja abaixo algumas curiosidades sobre o bilinguismo:

– O conceito de bilinguismo é bastante controverso. Definições mais tradicionais o restringem a contextos nos quais a exposição e aquisição das duas línguas acontece de forma simultânea e os sujeitos adquirem o mesmo nível de proficiência em ambas as línguas.

– Alguns cientistas chegam a definir 37 tipos de bilinguismos. Se o bilinguismo for considerado como a capacidade de compreender e produzir frases e textos orais em duas línguas de maneira satisfatória, a criança ou adulto não necessariamente deve ter uma pronúncia igual a um determinado falante nativo de ambas as línguas ou possuir a mesma destreza para falar, ouvir, ler e escrever sobre qualquer assunto em ambos os idiomas. O importante é que ela (e) se sinta confortável ao utilizá-las, entenda e se faça entender numa boa parte de situações corriqueiras aos usuários de ambas as línguas.

– Há uma série de estudos que comprovam que o cérebro de sujeitos bilíngues é mais flexível. Eles operam o mecanismo de inibição mais precocemente, o que faz com que consigam separar o que é relevante do que é irrelevante na resolução de problemas se comparados a sujeitos monolíngues.

– Crianças bilíngues estão menos sujeitas à demência, depressão e, em acidentes de lesões no cérebro, há uma reestruturação de sua atividade e recuperação das funções que, em sujeitos monolíngues, ou é bem mais demorada ou não acontece.

 

E para os pais que realmente querem investir em escolas bilíngues, alguns aspectos devem ser levados em consideração:

Carga horária: de acordo com os especialistas, o ideal é um número mínimo de seis horas/aula por semana para que as crianças alcancem os resultados esperados.

Método: é de fundamental importância que o conteúdo seja adequado ao nível cognitivo da faixa etária da criança, utilizando o inglês como meio de comunicação e não apenas para apresentação de estruturas linguísticas.

Professores: devem ser fluentes na língua inglesa, possuir um bom conhecimento sobre os processos de aquisição da linguagem e para oferecer naturalidade na comunicação com as crianças.

Processo: durante o desenvolvimento do curso, o ideal é o diálogo da escola com os pais e a troca de informações.

Continuidade: é preciso que a criança participe do programa do começo ao fim. É de suma importância que os usos da língua adicional não fiquem restritos ao contexto da escola bilíngue ou mesmo curso de idiomas.

Resultado: os pais precisam pesquisar qual o resultado pretendido por determinado programa ou saber se os alunos serão testados por meio de algum exame de certificação de referência, como TOEFL, IELTS ou de Cambridge.

 



There are no comments

Add yours